Uma felicidade possível nos contos da várzea de Marcelo Mendez

por Gabriel Kolyniak

Celebração de um bom lançamento em Santo André, 2015. Foto: Maristela Raineri.

No final de 2014, eu trabalhava de dia como editor de conteúdo em um sistema de ensino de São Paulo e à noite na Editora Córrego, que tinha então pouco mais de um ano e meio de fundação. Até aquele momento eu e meus parceiros – que eram Tomás Troster, com quem fundei em 2010 a Revista Córrego, e o artista gráfico Bruno Lenarducci – estávamos publicando sobretudo pessoas de um círculo próximo, que já conhecíamos por outras razões que não a de ter uma editora e buscar obras que tivessem relação com nossa linha editorial. 

Depois de um tempo funcionando em um escritório que era uma sala de um prédio no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, nossas operações passaram a ter como base uma sala do clube literário Hussardos, fundado pelo editor Vanderley Mendonça, do selo Demônio Negro. A história desse clube é um capítulo à parte, mas o fato é que eu estava de certa forma envolvido nesse projeto e a Córrego deixou o escritório do Paissandu para funcionar neste espaço, que ficava na Rua Araújo, na República, no prédio do Clube de Xadrez São Paulo.

Neste período de mudanças, eu procurava formas de expandir meus círculos de autores, encontrar outros interlocutores, pensar em novos projetos. Na empresa onde eu trabalhava, também trabalhava como designer um artista chamado Edson Ikê. Ele é dono de um estilo único de ilustração, e utiliza elementos de várias linguagens gráficas, especialmente a xilogravura, na construção de suas obras.

Eu e o Edson tínhamos uma ótima relação no nosso ambiente de trabalho, e em algumas ocasiões fizemos alguns brindes no final do expediente. Conversando sobre os projetos que eu tinha para a Córrego, eu comentei com ele que eu tinha interesse em publicar escritores da região do ABCD paulista, que é célebre por contar com ótimos artistas, inclusive poetas. Ele disse que iria pensar e me traria, sim, alguma indicação, já que ele é de lá e conhece um monte de gente legal daquelas bandas.

Passou um tempo e ele me falou do Marcelo Mendez, figuraça do ABCD, que é jornalista mas também tinha sido camisa 10 do Esporte Clube Nacional. Filho de pai metalúrgico sindicalista e mãe nordestina, acostumado a trabalhar pesado mas com certa vocação a bon-vivant, boa conversa, bom parceiro de copo, enfim, tudo para ser um ótimo amigo. Eu perguntei para ele, conforme começava a escrever este texto, sobre o processo de edição deste livro, e ele me disse o seguinte:

Eu me recordo muito bem, era final de novembro de 2014, minha vida estava uma bagunça da porra. Eu tinha acabado de fazer um trampo no jornal, tinha algum dinheiro, e isso me deu alguma tranquilidade para pensar numas coisas, olhar para trás e ver o material que eu tinha até então. A ideia de Contos da várzea e outros blues nasceu a partir de uma coluna de crônicas semanais no jornal. Eu juntei aquilo lá e pensei que dava para fazer igual ao Nelson Rodrigues, em livros como À sombra das chuteiras imortais, O berro impresso nas manchetes, eu queria fazer algo nesse sentido mas com o futebol de várzea. Mas para mim era foda para um cara desconhecido no mercado editorial – não sei se sou conhecido hoje, mas aquela época era ainda mais desconhecido. A dificuldade disso era grande. Até que o Edson Ikê me falou: “Olha, eu tenho um amigo que tem uma editora chamada Córrego. Vou te passar o contato dele”. Aí ele me passou sem contato, e a gente conversou pelo Facebook muito rapidamente, né, Gabriel, você não tinha WhatsApp e é bicho do mato até hoje. Mas aí marcamos um dia, eu fui lá na Córrego, e eu lembro que no caminho eu fiquei pensando: “Será que vai dar?”. Eu era tão chucro nisso que eu nem pensei em levar um pendrive, eu levei um calhamaço impresso cheio de coisas, e eu lembro que na primeira conversa que tivemos você me perguntou o que era e eu falei para você o que era, que era indicado pelo Edson Ikê, e aí você passou os olhos no material e disse: “Vou publicar”.
Daí o processo foi ótimo, foi um dos mais agradáveis. A minha vida pessoal deu uma virada, estava tudo muito bem naquele começo de 2015. A gente fazia compilações, pensava capas juntos, diagramava juntos, o trabalho na Córrego era muito tranquilo. A gente combinou que faríamos um lançamento em Santo André nos moldes da várzea: cerveja e salgadinho Torcida. A gente se preparou com a mídia local, e isso tem muito a ver com a forma como eu trabalho, pois eu sei que no meu local de trabalho eu tenho uma boa visibilidade. Eu trabalhei muito ali, na divulgação do lançamento, e a aceitação do livro pelos jogadores da várzea foi devida ao fato de eles se sentirem protagonistas do livro. No dia do lançamento do livro, eles eram as estrelas, e acho que por isso Contos da várzea e outros blues deu muito certo.

De fato, o Marcelo me apresentou um conjunto de crônicas que tinham sido publicadas no jornal ABCD Maior, numa coluna que se chamava “Canela de Ferro”. De imediato o material me interessou, por algumas razões bem claras. A primeira era pelo fato de ele buscar o tempo todo valorizar os jogadores da várzea, narrando detalhes que davam uma grande dignidade para os jogos que aconteciam em locais de pouca visibilidade para a sociedade em geral. Em outras palavras, ele dispensava uma atenção e buscava registrar cada detalhe de jogos que, para outros cronistas, seriam simplesmente a “xepa”. O Marcelo já tinha trabalhado em projetos de grande porte, como o livro oficial do centenário do Palmeiras, e tinha a mesma dedicação – ou até maior – para cobrir jogos ignorados pela grande mídia. Só isso já era suficiente para ganhar minha consideração.

Marcelo como camisa 10 do Nacional. Foto: Amanda Perobelli.

Outra coisa que despertou meu interesse foi a forma como ele entrelaça elementos da história da música, do cinema e da literatura com a narrativa dos jogos de várzea. Isso tem a força de criar linhas de indiscernibilidade entre o erudito e o popular, ou, em outras palavras, projetar espaços de horizontalidade, em que nada é popular demais ou erudito demais para se encontrar no plano literário. Mais um ponto para o Marcelo, que ao fazer isso ajudou a formar vários cronistas da quebrada, que viram nele uma referência cultural e se inspiraram a se tornar escritores e buscar novos conhecimentos.

O Marcelo e eu num dia em que estávamos trabalhando em um projeto. Não é o mesmo que é tema deste texto, mas nós somos esses aí.

E de fato, essas virtudes do trabalho do Marcelo Mendez ficaram evidentes para mim logo de cara. Foi por isso que, de acordo com a narrativa dele, eu dei uma olhada no material e já topei fazer a edição. Dali em diante começamos a trabalhar em ritmo acelerado. Eu e o Tomás fazíamos rapidamente a preparação do texto, que estava sendo transposto do formato ligeiro de uma coluna de jornal para livro, o que, no nosso entendimento, exigia uma série de tratamentos e adequações de registro linguístico e estilo. Ao mesmo tempo, o Lenarducci ia fazendo o tratamento das fotos, gentilmente cedidas pelo ABCD Maior e pelos fotógrafos que trabalhavam com o Marcelo (Amanda Perobelli, Andris Bovo, Fabiano Ibidi, Marcello Vitorino, Maristela Raineri, Nario Barbosa e Rodrigo Pinto) e também preparando várias versões da imagem de uma bola num campo de terra batida para a capa. Em algumas semanas de trabalho chegamos ao livro pronto e começamos a nos preparar para o lançamento.

O Marcelo e sua então companheira prepararam o tal coquetel “estilo várzea”, que, como ele mencionou no depoimento acima, era composto de muitos litros de cerveja e algumas embalagens de salgadinho Torcida, servidos a uma quantidade realmente bem grande de gente que lotou a Casa da Palavra, no centro de Santo André. Fizemos o lançamento, eu, Tomás e nossa amiga, autora e colaboradora Juliana Abramides, que na época estava bastante engajada com a editora, trabalhando junto com a gente na produção dos eventos. Uma coisa que chamava a atenção era a grande quantidade de jogadores da várzea que estavam presentes, e bastante animados. Vi vários exemplares sendo assinados não só pelo autor do livro, mas também por times inteiros cujos jogos eram narrados. Este foi então um lançamento bem diferente, com uma vibração que raras vezes vimos acontecer.

Bico molhado na sede do Santa Cristina F. C. Foto: Maristela Raineri.

Um dos times abordados no livro é o Santa Cristina F. C., que tem base no Jardim Santa Cristina, em Santo André. Naquele ano eles foram campeões da terceira divisão da várzea de Santo André, e sua vitória foi celebrada eloquentemente na crônica “O sagrado Santa Cristina segundo Louis Malle”. No embalo do primeiro lançamento em Santo André, eles nos convidaram a fazer uma nova celebração na sede do time, e este foi um dia inesquecível. Eles não deixavam nossos copos ficarem secos por muito tempo, faziam questão de nos manter alimentados, a mim, à Juliana, ao Marcelo e à Maristela, e depois de uma certa altura eu só lembro da gente dançando enquanto o samba de roda soava forte na frente do bar. Depois, a memória me leva à visão das luzes da Avenida do Estado passando rapidamente, no ritmo que para mim naquela hora parecia frenético das rodas do carro da Maris.

Em homenagem ao Santa Cristina, que tão bem nos recebeu, deixo aqui a crônica que mencionei acima, “O sagrado Santa Cristina segundo Louis Malle”, para dar um pouco a ideia do que é Contos da várzea e outros blues.

Quando vi o filme Adeus, Meninos, do grande mestre Louis Malle, ali por volta de 1987, o que mais me cativou foi a história da amizade que havia ali naquela película.
Soube que Malle contava sobre sua infância na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, sobre a amizade que surgiu ali entre ele e um garoto judeu matriculado no mesmo colégio que o seu e sobre como esse sentimento se manteve forte ante tudo que os acometia naquele período. Emocionei-me a primeira vez que vi, e ainda me emociona até hoje pensar em Adeus, Meninos.
Lembrando disso tudo, fico pensando que se eu tivesse que falar de minha infância no Parque Novo Oratório durante a Ditadura Militar vigente no Brasil nos anos de 1970, certamente eu falaria usando para isso minha vida toda no futebol de várzea de Santo André. E com certeza, isso me emocionaria da mesma forma. Cativaria aos senhores, caros leitores, falar de amizade, de união, de vínculo, de identidade com um lugar que no meu caso era o Nacional do Parque Novo Oratório, tanto quanto Louis Malle cativou ao falar dos seus amigos no Colégio Sainte-Croix em Fontainebleau.
E sei que vai cativá-los o exercício de ler aqui um tanto sobre o time de futebol do Jardim Santa Cristina, campeão da terceira divisão do campeonato amador de Santo André, ao bater o time do Trans Rodi por 3 x 0 no último domingo (15/03/2014) no Estádio da Cidade dos Meninos. Pois bem…
Acordei cedo no domingo e cheguei no Estádio às 9h. Por lá vi o que há muito tempo não via no futebol. Era um público feliz, farto de alegria, encanto, paz, munidos de suas bandeiras, seus instrumentos de samba, sua disposição plena para ser feliz, se divertir e fazer do futebol algo realmente muito bom.
Era uma torcida forte, orgulhosa e vivaz que chegava no Estádio, vestindo a camisa do Jardim Santa Cristina. Conversei com alguns deles e de todos ouvi a mesma coisa: “Somos de um bairro carente de muita coisa, não tem acesso à saúde, o lazer é escasso, mas o que não falta é alegria. E o nosso time nos dá muito disso porque é nosso mesmo, da nossa quebrada, com gente nossa jogando. Ele nos representa, e por isso estamos aqui” – diziam-me.
Confiantes como estavam, nem queriam saber muito sobre o adversário que enfrentariam, o Trans Rodi. Um bom time. Sua torcida forte, alegre, sempre tinha um gostoso sotaque predominante, que era o nordestino. Soube atraves deles que pouco sabiam do Clube, de Santo André e tudo mais. Eram da Zona Leste de São Paulo, do Bairro de São Mateus, e estavam ali com os seus jogadores, do time de lá, chamado Furacão E. C. As camisas inclusive eram desse mesmo Furacão. Imediatamente, pensei: “Temos então o confronto de um nome (Trans Rodi) contra toda uma comunidade, que tem sua história ali representada por garotos que viveram, cresceram, sonharam, choraram e sorriram juntos”. Era um time formado por meninos de outrora, que se despediram sim de suas ilusões de crianças, mas que não desistiram do sonho que por ali havia desde tenra idade.
Claudio, Marcel, Fabinho, Guiga, Alex, Val, Henrique, Adilson – o craque do time –, todos eles nascidos e criados ali na quebrada junto com o presidente do clube, o poético Fafá, mereciam demais o momento de sagração que tiveram ontem ao final daquele jogo. A vitória do Santa Cristina ontem na final da Terceirona é o triunfo do encanto pleno no mundo dos que pouco sonham. Que sejam felizes, portanto.
Eu sempre serei do lado de quem não desiste de ser menino…