Hipnose para um incêndio: uma conspiração para publicar a Rita Medusa

por Gabriel Kolyniak

Rita Medusa, numa foto tirada em 2018, num dia em que se apresentou fazendo um improviso blues.

Eu conheci a Rita há alguns anos, por intermédio do Julio Bittar, que é um poeta e pintor que mora ali perto da Consolação, em São Paulo. Naquele tempo, eu ia quase que diariamente à casa do Julião, com quem eu passava boas horas conversando, falando de poesia e tocando algumas canções – ele no violão e na voz, eu na gaita ou na flauta, dependendo da canção escolhida. O repertório era formado principalmente por canções românticas brasileiras, aquelas também conhecidas como música brega, e também por algumas dos Rolling Stones.

O Julio sempre me falava que eu tinha que conhecer a Rita, a Ritinha, a Rita Medusa, que a Rita era ótima, que a Rita escrevia bem pra caramba, que eu tinha que ver os poemas da Rita, e assim por diante. Aí eu vim a conhecê-la num dia em que eu e o Julio fomos a um protesto contra o Kassab, então prefeito de São Paulo, quando aquele infame prefeito queria proibir a atividade dos artistas de rua. O Julião puxava o coro, com a voz forte dele: “Um, dois, três, Kassab no xadrez!” A memória me confunde um pouco, não sei se a ouvi falando seus poemas logo na primeira vez que a gente se encontrou ou depois. Mas de qualquer forma, em algum momento eu já estava habituado à densidade de seus versos e à agitação que caracterizava o convívio com ela, entre cervejas e vinhos, poemas e gargalhadas.

A Rita Medusa é uma figura rara mesmo. Ela é formada em psicologia, e vive envolta pela escrita. Nos seus textos – poemas, cartas, recortes de prosa – ela muitas vezes se dirige a alguém que nem sempre é muito claro quem é; pode ser que ela esteja se dirigindo a uma pessoa que ela ama secretamente, pode ser que ela esteja se dirigindo à sua própria sombra, pode ser que secretamente ela ame sua própria sombra… Mas é este espaço entre “eu” e “tu” que ela preenche com uma poética errante, complexa, retorcida, como no poema “Nervos secretos”:

vou guardar teu nome
para um pensamento vilão
uma sede escancarando
constelações nas margens tristes
pedaços do teu cheiro
no meu travesseiro curvo
gravidez indesejada
na minha fábrica de seivas

não venha
na minha nudez de mantos roubados
não me perdoe
na noite de sabedorias imundas

um pacto santo penetra a noite
vou adiante com o poente nos nervos

Naquela época, a Editora Córrego ainda não estava aberta, mas a Revista Córrego estava a todo vapor. Eu e meus amigos que fazíamos a revista costumávamos trabalhar duro até tarde para produzir cada número, revisando os textos, discutindo a pertinência de publicar cada um deles, pensando em quem convidar para escrever, o que colocaríamos na capa, se mudaríamos algo no projeto gráfico… E várias vezes eu convidei a Rita para publicar pelo menos um poema na revista, sem sucesso. Depois, com a editora já fundada, era difícil convencer a Rita a reunir seu trabalho em um livro e ter este livro editado. Ela sabia que eu queria publicá-la, nossos amigos diziam que ela tinha que ser publicada, mas ela sempre se esquivava, dizia que sim, que faria, que tinha que fazer, mas parecia que aquilo não caminhava.

Passaram-se alguns anos. A Paloma Klisys foi quem conseguiu convencer a Rita a finalmente publicar seus poemas, com base em muita insistência. E foi aí que apareceu o Hipnose para um incêndio. A Rita trouxe aqueles poemas para nós, e dedicamos uma sessão do grupo de leitura da Biblioteca Roberto Piva a ler os poemas dela em grupo. Era impressionante a reação do pessoal: cada poema causava frisson, deixava todos boquiabertos, provocava exclamações de admiração – a ponto de ao final de cada poema, o pessoal fazer um pequeno coral: “Rita, Rita, Rita!”.

Uma foto que fiz da Rita enquanto trabalhávamos, no escritório da Córrego.

Pois bem, fizemos a edição do livro. Ele pode ser comprado em nossa loja virtual. Ela já me trouxe tudo bem organizado. Havia ilustrações de sua lavra, criadas com uma ferramenta digital, que apresentam figuras humanas com muita condensação de significantes e significados. Eram muitas ilustrações, então eu tinha que escolher algumas delas, e para isso usei em primeiro lugar um critério frustrantemente pouco poético: só entrariam as imagens inteiramente P&B, já que eu não tinha orçamento para imprimir ilustrações coloridas. Vou aproveitar que estou escrevendo este texto para mostrar algumas das ilustrações a cores, que não entraram no livro:

Outra coisa que a Rita trouxe pronta foi a proposta de capa. Ela foi feita pelo André Kitagawa, que fez um trabalho excepcional, que me lembrou as capas da HQ Cripta do Terror. Isso de certa forma tem bastante a ver com a atmosfera densa, entre o delírio, o sonho e o pesadelo de sua poesia. Vários dos meus interlocutores ficaram em dúvida com a adoção dessa capa, não pela qualidade da ilustração, mas justamente pela associação com esse universo da HQ, mas depois de pensar bastante eu decidi que sim, era essa a proposta gráfica que teria a ver com a forma de apresentar a Hipnose para um incêndio.

Capa por André Kitagawa.

Para encerrar a apresentação desse livro, mostro aqui o poema de abertura, “Anjo disfarçado de leão”:

Mede a altura do tombo
pra calcular o tempo que restará
pra contar quantas magnólias
foram detidas nos dentes
uma tentativa divina de explicar a primavera
para pequenos roedores
a montanha desenhada na nuca 
o plano de fuga traçado no sangue
os tornozelos como garças em pontes levadiças 
o último sonho com éter de um velho de 20 anos
tentando casar-se com uma ideologia de resgate
amontoando cigarras no peito
contando sua versão de muros grafitados
uma alegria solitária de aflitos
me explicando que o remédio não impede
que a dor orquestre 
cada movimento
e altere os ângulos quando o mundo
devora a trama 
que não mais sustenta
teu esqueleto suspenso nas alturas